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22 agosto 2026

O preço de se posicionar: e quando a política que você apoia pode se voltar contra você?

 


O Biólogo Henrique escolheu um lado em 2022: declarou apoio a Lula, assumiu posições de esquerda e deixou claro seu posicionamento político. Mas existe um preço em escolher uma ideologia: aceitar que as políticas defendidas por esse campo também podem produzir consequências quando chegam até você.


Essa talvez seja a parte mais desconfortável de qualquer posicionamento político.

É fácil defender uma ideia quando ela está sendo aplicada aos outros.

A verdadeira prova acontece quando aquilo que você defendeu durante anos passa a fazer parte de uma situação que envolve você.

E é justamente nesse ponto que o caso envolvendo o Biólogo Henrique e a Lei Maria da Penha.


O problema nunca foi escolher um lado


Henrique nunca escondeu seu posicionamento.

No tweet postado, ele afirma:


“O Richard não é o biólogo do Bozo. Então por que eu não posso ser o biólogo do Lula?”

E vai além:

“Declaradamente eu sou o biólogo Henrique, sou o Lula, tamo junto.”


Portanto, não existe aqui uma discussão sobre o direito de uma pessoa ter posicionamento político.

Ele pode.

Qualquer pessoa pode.

O ponto é outro.

Quando você declara publicamente apoio a um projeto político, também passa a assumir, ao menos em alguma medida, o ambiente político e institucional que esse projeto representa.

Você não está apenas dizendo:

“Eu gosto desse político.”

Está dizendo:

“Eu concordo com parte importante do caminho que esse grupo político está propondo para a sociedade.”

E é aí que começa o preço do posicionamento.


O que o governo Lula fez em relação à Lei Maria da Penha?


A Lei Maria da Penha foi criada em 2006, durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 7 de agosto daquele ano, Lula sancionou a Lei nº 11.340/2006, estabelecendo mecanismos específicos para prevenir e combater a violência doméstica e familiar contra a mulher.

O atual governo Lula vem adotando e sancionando medidas que ampliam e fortalecem mecanismos relacionados à proteção das mulheres.

Em 2026, por exemplo, Lula sancionou a Lei nº 15.411, que alterou a Lei Maria da Penha para incluir o risco à integridade sexual, psicológica, moral ou patrimonial da mulher ou de seus dependentes entre as situações que podem fundamentar o afastamento do agressor.

Também sancionou a Lei nº 15.412, que alterou dispositivos relativos às medidas protetivas de urgência.

Além disso, o próprio Ministério das Mulheres apresenta a Lei Maria da Penha como um dos principais instrumentos de prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres e defende seu fortalecimento.

Portanto, existe uma política pública clara nesse campo.

Não é invenção da oposição. É uma política assumida pelo próprio governo.


Quando a política deixa de ser teoria

Segundo o relato apresentado por Henrique, ele teria sido alvo de um processo relacionado à Lei Maria da Penha, afirma não conhecer pessoalmente a mulher envolvida e diz que a situação estaria causando problemas em sua vida pessoal e familiar. O próprio material deixa claro que ele não poderia revelar detalhes por se tratar de segredo de justiça.

Isso não permite afirmar que a denúncia seja falsa.

Também não permite afirmar que Henrique tenha cometido qualquer crime.

Uma acusação não é uma condenação.

Mas existe algo que pode ser analisado independentemente do resultado judicial:

o paradoxo político.

Porque o homem que defendeu publicamente uma determinada concepção sobre o papel das mulheres e dos homens agora está diante de uma situação em que sente necessidade de se defender, falar, explicar e questionar o que considera injusto.

E ele fez exatamente isso.


O sistema que você apoia não pergunta de que lado você votou

Esse é talvez o ponto mais importante.

Uma lei não pergunta se você votou em Lula.

Uma medida protetiva não pergunta se você é de esquerda.

Um processo judicial não pergunta se você apoia o feminismo.

Uma política pública não conhece seus seguidores no Instagram.

O mecanismo funciona sobre as pessoas que estão dentro das circunstâncias previstas por ele.

E é justamente aí que surge uma questão que muitas vezes é ignorada: um sistema criado para atender a uma finalidade legítima pode, dependendo de como funciona na prática, alcançar pessoas que originalmente não se imaginavam como seus alvos.

E é aí que aparece o verdadeiro preço de apoiar uma ideologia.

Você pode apoiar determinada política porque acredita que ela é necessária para proteger um grupo.

Mas, quando essa política passa a existir no mundo real, ela não será utilizada exclusivamente contra aqueles que você considera seus adversários.

Ela pode atingir qualquer pessoa.

Inclusive você.

E existe ainda uma reflexão mais incômoda: quanto mais corrompido, aparelhado ou conivente um sistema eventualmente se torne, maior pode ser o risco de que determinadas pessoas sejam tratadas de maneira diferente conforme sejam consideradas úteis, inconvenientes ou prejudiciais aos interesses de quem controla ou influencia esse sistema.

Porque o princípio continua sendo o mesmo:

Enquanto você acredita que o mecanismo será usado apenas contra quem você considera errado, ele parece uma ferramenta de proteção. Quando percebe que o mecanismo também pode ser aplicado contra você — ou que sua aplicação pode ser seletiva conforme a conveniência de quem detém poder — a discussão deixa de ser apenas ideológica e passa a ser institucional.


As Consequências do Posicionamento.


Henrique declarou apoio a Lula.

O governo Lula declara apoio ao fortalecimento das políticas de proteção às mulheres.

O governo sancionou alterações na Lei Maria da Penha em 2026.

E, paralelamente, Henrique relata uma situação em que afirma estar sendo prejudicado por uma acusação relacionada justamente a esse universo jurídico.

Esse é o paradoxo.


“É  que acontece quando alguém apoia um sistema de ideias e, posteriormente, se vê diante de uma consequência produzida dentro do ambiente institucional que esse sistema ajudou a construir?”


 A ideologia não vem com botão de desligar


Esse é um erro que muitas pessoas cometem ao se posicionar politicamente.

Elas escolhem um pacote.

Defendem o candidato.

Defendem o movimento.

Defendem determinadas políticas.

Criticam o adversário.

Mas alguns esperam que as consequências desse pacote atinjam somente quem está do outro lado.

Não funciona assim.

Se você defende maior proteção jurídica às mulheres, precisa aceitar que essa proteção terá aplicação prática e poderá ser usada de má fé por pessoas.

Se defende medidas protetivas mais abrangentes, precisa aceitar que elas poderão ser utilizadas em situações que você pessoalmente não considera legítimas — e que caberá ao sistema de Justiça avaliar cada caso.

Se defende o fortalecimento de determinada estrutura institucional, precisa aceitar que essa estrutura não será utilizada somente contra seus adversários políticos.

Ela também poderá chegar até os seus próprios apoiadores.


O verdadeiro peso de apoiar um governo

Apoiar um governo não significa ser responsável por cada ato praticado por todas as pessoas que trabalham nele.

Da mesma forma, ninguém pode ser responsabilizado automaticamente por todas as decisões tomadas por instituições que existem durante o governo que apoiou.

Mas existe uma responsabilidade política diferente:

A responsabilidade de reconhecer as consequências do projeto que você ajudou a legitimar.

Se você diz:

“Sou Lula.”

Você não está apenas escolhendo uma pessoa.

Está assumindo uma identidade política.

Se diz:

“Sou feminista.”

Também está assumindo determinados princípios.

Se defende o fortalecimento das políticas de proteção às mulheres, está defendendo uma determinada concepção de sociedade.

E quando essa concepção produz instrumentos jurídicos cada vez mais amplos, você precisa estar preparado para viver em uma sociedade na qual esses instrumentos também podem alcançar situações inesperadas.


A ironia está justamente aí

O posicionamento político de Henrique não desapareceu.

Ele continua podendo apoiar Lula.

Continua podendo defender o feminismo.

Continua podendo defender a Lei Maria da Penha.

Continua podendo acreditar que políticas de proteção às mulheres são necessárias.

Mas agora existe uma experiência pessoal que coloca essas convicções diante de uma pergunta que nenhum discurso político consegue evitar:

E se o mecanismo que você defendeu for utilizado contra você?

Você continuará defendendo o princípio?

Ou começará a questionar o mecanismo porque, dessa vez, ele chegou até você?

Essa é a verdadeira questão.


O preço de se posicionar

O Tweet dele termina com uma frase poderosa:

“Quem não se posiciona, posicionado está.”

É verdade que ninguém precisa permanecer neutro.

Mas também existe um outro lado dessa frase:

Quem se posiciona precisa aceitar ser cobrado pelo próprio posicionamento.

Henrique escolheu um lado.

Declarou apoio a Lula.

E agora relata estar enfrentando uma situação envolvendo justamente uma estrutura jurídica relacionada à proteção das mulheres que o governo que ele apoia promove.

Isso não significa que ele esteja errado.

Não significa que a acusação feita a ele seja verdadeira.

Significa algo mais simples — e talvez mais incômodo:

As políticas que defendemos não escolhem apenas os nossos antagonistas para produzir efeitos.

Elas também podem alcançar quem está do nosso lado.

E é exatamente por isso que o posicionamento político tem preço.

Porque é fácil defender uma ideia enquanto ela está protegendo alguém que você considera vítima.

Difícil é continuar defendendo o mesmo princípio quando você passa a ser a pessoa que precisa ser protegida.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja:

“De que lado você está?”

Mas sim:

“Você continuaria defendendo o mesmo lado se as consequências das suas próprias escolhas políticas chegassem até você?”

Porque se posicionar é escolher um caminho.

O verdadeiro preço está em descobrir para onde esse caminho realmente leva.




✦ ANÁLISE • POSICIONAMENTO • POLÍTICA

O preço de se posicionar

E quando a política que você defendeu pode produzir consequências que chegam até você?

Defender uma ideia é fácil.
Difícil é continuar defendendo-a quando você passa a viver suas consequências.

↓ O caso do Biólogo Henrique levanta uma pergunta incômoda ↓

Você continuaria defendendo o mesmo princípio se o mecanismo que você apoiou chegasse até você?
Descubra o paradoxo por trás do posicionamento, da política e das consequências que ninguém consegue escolher.

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