Durante anos, a comunidade de Lost Media brasileira procurou pelos DVDs do personagem Lilico, um boneco infantil gospel que fez apresentações em igrejas evangélicas pelo Brasil durante os anos 2000 e início da década de 2010.
Recentemente, um dos DVDs considerados perdidos foi finalmente encontrado e digitalizado. Para muitos pesquisadores da internet, isso encerrou mais um caso clássico de mídia perdida.
Mas, ao assistir ao conteúdo, surgiu uma pergunta muito mais desconfortável do que a própria Lost Media.
É possível assistir ao Lilico ignorando quem era o homem por trás da fantasia?
No caso específico, essa resposta parece ser muito mais complexa do que parece.
Quando autor e personagem se tornam a mesma pessoa.
Manuel Vital não era apenas o criador do Lilico.
Ele era o Lilico.
Não existia um ator diferente, uma empresa administrando o personagem ou uma franquia independente.
Era sua voz.
Seu rosto por trás da fantasia.
Sua personalidade.
Sua forma de evangelizar.
Sua imagem pública.
Tudo aquilo fazia parte da identidade do personagem.
É justamente por isso que o caso gera tanto desconforto hoje.
Após ser condenado pelo assassinato da própria esposa, Manuel Vital destruiu completamente a credibilidade moral construída durante anos em apresentações voltadas principalmente para crianças dentro de igrejas.
E essa quebra de confiança muda completamente a forma como o público passa a enxergar aquele conteúdo.
A ciência explica por que isso acontece
Muitas pessoas gostam de repetir a frase:
"É preciso separar a obra do autor."
Mas diversos estudos em psicologia moral mostram que nosso cérebro não funciona dessa maneira.
Pesquisadores da Universidade de Yale, como o psicólogo Paul Bloom, demonstram que o conhecimento sobre quem criou uma obra altera diretamente nossa percepção sobre ela.
Em experimentos, participantes avaliavam exatamente o mesmo objeto de maneiras diferentes apenas por descobrirem informações sobre seu criador.
Ou seja:
A obra não muda.
Quem muda é nossa interpretação.
Já o filósofo Berys Gaut, referência na filosofia da arte, defende que características morais do artista podem influenciar legitimamente nossa avaliação estética quando essas características fazem parte da própria obra.
E esse parece ser exatamente o caso do Lilico.
O personagem e autor nunca foram pessoas diferentes.
Existe uma diferença importante entre um personagem famoso e um artista famoso.
Superman continua existindo independentemente de quem o interpreta.
O Mickey continua sendo Mickey independentemente dos funcionários da Disney.
Já o Lilico não.
O personagem dependia exclusivamente da imagem construída por Manuel Vital.
Era ele quem cantava.
Era ele quem pregava.
Era ele quem interagia com as crianças.
Era ele quem vendia DVDs.
Era ele quem transmitia uma mensagem de valores cristãos.
Quando essa pessoa é condenada por um crime tão grave quanto o assassinato da própria esposa, não estamos falando apenas da queda de um artista.
Estamos falando do colapso completo da identidade do próprio personagem.
Isso significa que artistas são todos iguais?
É importante fazer uma distinção que, muitas vezes, desaparece em debates nas redes sociais.
Ser artista não torna alguém moralmente superior.
Da mesma forma, ser religioso também não.
Artistas, líderes religiosos, influenciadores, professores e figuras públicas continuam sendo seres humanos.
São capazes de realizar trabalhos inspiradores.
E também são capazes de cometer crimes.
É justamente por isso que instituições religiosas, culturais ou artísticas nunca devem servir como proteção moral para quem pratica violência.
Quando alguém comete um crime grave, especialmente um homicídio, esse ato precisa ser condenado independentemente de sua posição social, fama ou atuação dentro de uma igreja.
Psiquiatria também faz um alerta importante
Existe outro erro comum que aparece em casos como esse.
Muitas pessoas tentam explicar crimes violentos dizendo simplesmente que o criminoso era "louco".
A psiquiatria moderna não faz essa associação.
Segundo entidades como a American Psychiatric Association e a Organização Mundial da Saúde (OMS), a imensa maioria das pessoas com transtornos mentais não pratica crimes violentos.
Da mesma forma, a maioria dos crimes violentos não pode ser explicada exclusivamente por uma doença psiquiátrica.
Violência resulta de uma combinação extremamente complexa de fatores sociais, ambientais, históricos e individuais.
Usar transtornos mentais como explicação automática para homicídios apenas reforça preconceitos contra milhões de pessoas que jamais cometeriam qualquer ato violento.
O verdadeiro desconforto do DVD encontrado
Talvez o DVD encontrado nem seja assustador por seu conteúdo.
Na verdade, ele é exatamente aquilo que se espera de uma produção gospel infantil dos anos 2000.
Canções.
Coreografias.
Pregações.
Brincadeiras.
O que provoca estranhamento não está no vídeo.
Está em tudo aquilo que o espectador sabe hoje.
É impossível assistir sem lembrar que a mesma pessoa que cantava para crianças acabou sendo condenada pelo assassinato da própria esposa.
O vídeo deixa de ser apenas entretenimento.
Ele se transforma em um documento histórico de uma imagem pública que foi completamente destruída pelos atos do próprio criador.
Separar a obra do autor nem sempre é possível
Talvez essa seja a principal lição deixada pelo caso do Lilico.
A discussão sobre separar obra e autor não possui uma resposta universal.
Existem situações em que essa separação faz sentido.
Mas existem outras em que ela simplesmente deixa de existir.
Quando o artista é o próprio personagem.
Quando sua credibilidade moral faz parte da mensagem.
Quando sua identidade é vendida junto com a obra.
E, principalmente, quando essa identidade é rompida por um crime gravíssimo.
Nesse caso, talvez o personagem nunca tenha deixado de ser Manuel Vital.
E justamente por isso, dificilmente o público conseguirá olhar para Lilico novamente sem enxergar o peso da história que existe por trás daquela fantasia.
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