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28 outubro 2025

Por Que Piccolo é o João de Ferro de Dragon Ball Z — A Psicologia Oculta da Saga Saiyajin

 



A relação entre Piccolo e Gohan na Saga dos Saiyajins (Dragon Ball Z, episódios 1 a 35) vai muito além de mestre e discípulo — é um verdadeiro rito de passagem masculino.

Sob a luz do livro João de Ferro: Um Livro Sobre Homens, de Robert Bly, essa parceria ganha novas camadas de significado que explicam o crescimento emocional de Gohan e a redenção de Piccolo.

Mas o que o universo de Goku e os Saiyajins tem a ver com um conto dos Irmãos Grimm e a psicologia masculina moderna?

Prepare-se: essa é uma leitura que vai mudar o jeito como você vê Dragon Ball Z.


Gohan: O “Príncipe Dourado” e a Mãe Devoradora



No mito de João de Ferro, o jovem príncipe vive preso ao conforto materno — mimado, protegido e desconectado da dor que forja o amadurecimento.

Essa é exatamente a situação de Gohan no início da saga: um garoto de 4 anos, superprotegido por Chi-Chi, a mãe que o quer estudando e longe de qualquer luta.

Robert Bly chama isso de o “reino da mãe” — o lugar onde o menino não sofre, mas também não cresce. A morte de Goku e o sequestro de Gohan por Piccolo são, simbolicamente, o momento em que o menino é arrancado desse conforto e jogado em seu “caminho de cinzas”: o deserto, a fome e o medo que o obrigam a amadurecer.


Piccolo: O “Homem Selvagem” de Dragon Ball



Em João de Ferro, o homem selvagem é uma figura arquetípica: bruta, instintiva, mas também sábia — o mentor que ensina o jovem a ser forte sem ser cruel.

Piccolo é esse mentor.

Ele não é um pai carinhoso, mas um guia implacável. Deixa Gohan sozinho, força-o a sobreviver, e ensina que dor e disciplina são o preço da força.

É a versão shonen do arquétipo descrito por Bly: o homem que desafia, mas também protege.

Quando Piccolo destrói a lua para salvar Gohan de sua forma Oozaru, ele não é mais o vilão — é o guardião que ajuda o jovem a domar o próprio monstro interior.


O Rompimento com o Reino da Mãe


Para Bly, o amadurecimento masculino exige romper o cordão invisível com a mãe — não rejeitá-la, mas superar a dependência emocional.

O treinamento de Gohan com Piccolo é exatamente isso: a dor necessária para sair da infância.

Chi-Chi representa o excesso de proteção.
Piccolo representa o mundo real.
Entre os dois, Gohan aprende que crescer é aceitar a dor como parte da transformação.


Mas Bly também ressalta: a iniciação não é completa sem o retorno consciente — o momento em que o jovem integra força e sensibilidade.
Gohan ainda é uma criança, e sua jornada apenas começa.
O sacrifício de Piccolo planta a semente — o resto floresce anos depois, quando Gohan enfrenta Cell, já como Super Saiyajin 2.



Força e Compaixão: A Integração da Anima

Bly fala de integrar a anima — o lado feminino dentro do homem — para alcançar uma masculinidade equilibrada.
Gohan e Piccolo fazem isso juntos.

  • Gohan aprende que pode ser forte sem perder a ternura.

  • Piccolo descobre que pode ser protetor sem ser frio.

Quando Piccolo se sacrifica por afeto, ele une força e amor — o equilíbrio que Bly chama de “masculinidade plena”.
E Gohan, ao chorar sua morte, mostra que sentir também é parte do ser forte.


Limites e Potência dessa Leitura

Nem tudo se encaixa perfeitamente.
Bly fala de rituais, culturas tribais e arquétipos adultos — Gohan ainda é um menino, e Dragon Ball é uma ficção de ação.
Mas o paralelo é irresistível:
Piccolo é o João de Ferro de Gohan — o monstro que ensina humanidade.

Mesmo sem um ritual formal, o treinamento e o sacrifício representam os passos essenciais da jornada masculina:
separação, sofrimento, descoberta e integração.



 O Verdadeiro Sentido da Iniciação em Dragon Ball

Sob a ótica de Robert Bly, a relação entre Piccolo e Gohan é uma das mais profundas do universo Dragon Ball.
Não é apenas sobre lutar — é sobre crescer, romper com o conforto, enfrentar a dor e encontrar o próprio poder interior.
Piccolo ensina Gohan a ser forte.
Gohan ensina Piccolo a ser humano.
E juntos, eles encarnam a mensagem central de João de Ferro:

“Nenhum homem se torna inteiro sem antes descer ao poço e encarar o seu próprio selvagem.”



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21 outubro 2025

O que One Piece ensina sobre os laços invisíveis que sustentam o mundo

 



Você já percebeu quanto o Luffy tem de habilidades sociais? Não estou falando apenas das amizades próximas como Zoro ou Nami, mas daqueles laços que ele cria praticamente com todo mundo que encontra pelo caminho.

A psicologia social mostra que esses laços podem mudar a nossa vida. E Luffy é um retrato vivo disso. Sua extroversão, naturalidade e capacidade de criar conexões fazem dele um verdadeiro fenômeno social.


Luffy e o poder da influência emocional


Luffy exerce uma influência emocional poderosa sobre sua tripulação. Ele não impõe liderança — ele irradia.
Quando se mantém confiante, determinado e esperançoso, esse estado se espalha entre os Chapéus de Palha, moldando o clima emocional do grupo.

Estudos científicos comprovam que emoções como dor, medo e entusiasmo são socialmente transmissíveis.
Pesquisas com camundongos mostraram que o simples ato de ouvir sons associados à dor foi suficiente para gerar respostas inflamatórias e mudanças genéticas em outros animais.

Ou seja: estados emocionais se propagam biologicamente.
Luffy, intuitivamente, domina essa arte — é um catalisador emocional em forma de personagem.


Contágio emocional e liderança natural


O fenômeno é explicado pelos neurônios-espelho, responsáveis por sintonizar nossas emoções com as de quem está por perto.
É por isso que, quando Luffy sorri, seus companheiros se fortalecem; quando ele confia, todos ganham coragem.

Ele é o regulador emocional da tripulação, mantendo a esperança e o equilíbrio mesmo nas situações mais extremas.
Na psicologia, isso é chamado de corregulação emocional — a capacidade de estabilizar o clima de um grupo por meio do próprio estado interno.



O poder dos laços fracos segundo a ciência

Mas o que torna Luffy realmente singular é que ele não se limita aos laços fortes.
Ele cria pontes sociais com todos que cruza — como Vivi em Alabasta, Shirahoshi, Kinemon, Bon Clay e Law.

Esses vínculos superficiais, segundo o sociólogo Mark Granovetter, são os chamados laços fracos — e eles sustentam a estrutura social moderna.

Granovetter demonstrou que as oportunidades mais transformadoras surgem através dessas conexões ocasionais.
Um estudo envolvendo 20 milhões de usuários do LinkedIn confirmou: empregos e colaborações surgem com mais frequência de conhecidos distantes do que de amigos próximos.

Em One Piece, Luffy é o retrato vivo dessa teoria.
Cada breve encontro gera alianças que voltam em momentos decisivos — um verdadeiro mapa social de reciprocidade e confiança.

Microconexões e segurança emocional


Estudos recentes mostram que até pequenas interações — como cumprimentar um vizinho ou conversar rapidamente com um colega — fortalecem o bem-estar e a sensação de pertencimento.

Pesquisas com jovens de bairros de alto risco revelaram que essas microconexões funcionam como zonas invisíveis de segurança emocional, ajudando a evitar conflitos e aumentar o respeito mútuo.

Luffy faz exatamente isso: fala com todos, sem medo do ridículo ou da rejeição.
Ele espalha uma energia social contagiante que quebra o isolamento e inspira reciprocidade.



A ciência do hábito e o treino da sociabilidade


Mas e quem não é naturalmente extrovertido como o Luffy?
A ciência mostra que a sociabilidade pode ser treinada.

O cérebro é plástico e muda com a experiência.
Interações leves e graduais — cumprimentar alguém, trocar uma frase — ativam circuitos de dopamina e prazer social.

Ser introvertido não é ser antissocial, é apenas ter um sistema nervoso mais sensível a estímulos.
Com o tempo e a prática, o desconforto diminui.

A teoria da ativação comportamental, amplamente usada na psicologia clínica, mostra que agir primeiro e sentir depois é o caminho para quebrar ciclos de inércia emocional.
Pequenas ações — conversar, caminhar, sorrir — reacendem a motivação e criam um novo padrão de energia interna.

Não é preciso ser o Luffy — basta criar o seu próprio movimento.
Assim como na física, o mais difícil é sair da inércia. Depois disso, o movimento te carrega.





O corpo também molda o estado emocional


O psicólogo Johannes Michalak e seus colegas provaram que a forma como caminhamos influencia diretamente o humor.
Participantes instruídos a andar de forma mais alegre e energética relataram níveis maiores de felicidade.

Esse efeito é conhecido como feedback corporal — o corpo não apenas expressa emoções, ele as cria.
A postura, os gestos e até o ritmo da caminhada enviam sinais ao cérebro que modulam nosso estado interno.

Em One Piece, isso é visível em Koby, o jovem marinheiro que, após breves encontros com Luffy, muda completamente sua postura e autopercepção.
Ele não foi transformado por discursos, mas pelo exemplo vivo da coragem e leveza do capitão.

Essa é a essência da influência autêntica: liderar pelo estado interno, não pelas palavras.


O legado social de Luffy e a ciência da conexão


Luffy nos ensina que não é preciso ter muitos amigos íntimos para transformar o mundo.
Os laços fracos — as pessoas que encontramos casualmente — podem criar as pontes mais poderosas.

O capital social que ele espalha nasce da reciprocidade.
Quem se conecta com Luffy leva sua história adiante, e é assim que ele se torna uma lenda viva — um símbolo que transcende sua tripulação.

A grande lição é simples:
não desperdice nenhuma oportunidade de conexão.
Um cumprimento, uma conversa breve ou um sorriso podem mudar o rumo de uma vida — ou até de um mundo inteiro.

Um Experimento Social Ambulante. 


Luffy é mais do que um protagonista — ele é um experimento social ambulante.
Granovetter explicou pelos números; a psicologia confirmou pela biologia; e Luffy provou pela narrativa:
os laços humanos, mesmo os mais fracos, são a verdadeira força que move o mundo.


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15 outubro 2025

O Pecado de Takopi: Bullying, trauma e o fracasso do “salvador mágico”


 

Quando pensamos em histórias com criaturas mágicas ajudando crianças, nossa mente espera redenção, transformação e finais inspiradores. O Pecado de Takopi quebra essa expectativa de forma brutal — e é exatamente isso que torna a obra tão impactante e necessária.

A premissa parece simples: Takopi, um ser mágico cheio de boas intenções, chega à Terra disposto a trazer felicidade para Shizuka, uma garota afundada em dor, abandono e bullying. Mas diferente de tantas narrativas idealizadas, aqui não há sucesso imediato, nem milagre emocional. O contato com essa personagem nos arranca da zona de conforto e obriga a encarar um fato desconfortável: não é simples salvar alguém em sofrimento profundo.


Quando o escapismo falha


Em vez de apresentar Takopi como uma solução mágica, a obra revela os limites do escapismo. Para quem espera transformação rápida e motivacional, a jornada de Shizuka pode soar amarga ou até frustrante. Mas essa quebra de expectativa revela algo muito mais real: há dores que não desaparecem só porque alguém quer ajudar.

O autor não romantiza a cura, não “fantasia” o processo.


Bullying não é “coisa de criança”

A narrativa mostra o bullying em todas as suas camadas: humilhação, agressões físicas, isolamento, silenciosa cumplicidade de quem assiste e não interfere. Não é tratado como brincadeira nem exagero. É mostrado como aquilo que realmente é: um processo de destruição lenta da identidade.

Falo com propriedade. Sofri bullying na infância e adolescência ao ponto de ter medo de sair de casa. As sequelas sociais me acompanham até hoje, já adulto. Por isso afirmo: minimizar o bullying como se fosse “coisa de criança” é enterrar o debate e empurrar vítimas para o abismo do silêncio.





Shizuka: vítima… e consequência

O anime nos apresenta uma personagem que começa inspirando compaixão, mas, com o tempo, revela aspectos frios, egoístas e até chocantes. E isso não a transforma em vilã: revela o que o trauma crônico pode fazer com alguém.

Após perder o único afeto que tinha (o cachorro Chap), Shizuka tira a própria vida. Quando Takopi volta no tempo para tentar salvá-la, descobrimos o peso dessa história: mesmo com ajuda constante, empatia e presença, não é simples reverter uma mente esmagada por abandono, violência e desesperança.

Esse realismo incomoda muita gente — e é justamente por isso que é tão valioso.


O que a ciência revela sobre o impacto do bullying

A obra acerta ao mostrar que o bullying não afeta apenas o comportamento — ele altera o corpo e o cérebro. E a ciência confirma isso com dados alarmantes:

  • Ausência parental e desenvolvimento emocional: Estudos mostram que crianças criadas sem pai têm risco quatro vezes maior de viver pobreza, maior propensão a abandono escolar, dependência química, problemas comportamentais e até mortalidade infantil. Aos 9 anos, apresentam redução de 14% no comprimento dos telômeros — marcadores biológicos ligados ao envelhecimento e expectativa de vida.

  • Depressão e estrutura cerebral: Pesquisas na Journal of Neuroscience apontam que mulheres com depressão têm o hipocampo entre 9% e 13% menor. Esse efeito é ainda maior em quem acumulou vários episódios depressivos, indicando que traumas repetidos alteram a capacidade de memória emocional e enfrentamento.

  • Engramas e estresse crônico: Estudos de Tian Hui Zang mostraram que indivíduos (ou animais-modelo) expostos a estresse contínuo desenvolvem mais engramas ligados ao sofrimento, tornando pensamentos negativos mais frequentes e automáticos.

  • Neuroimagem e empatia reduzida: Exames de ressonância magnética funcional revelam que adolescentes vítimas de bullying severo têm alterações no corpo caloso, afetando a regulação emocional e a resposta empática. Isso explica porque vítimas crônicas podem parecer frias ou desconectadas — é um mecanismo de proteção, não falta de humanidade.

Ou seja, a reação de Shizuka — da apatia ao egoísmo extremo — não é forçada pela narrativa: é sustentada pelo que sabemos sobre trauma, isolamento e neuropsicologia.




O fracasso do herói único

Takopi tenta ser tudo: amigo, protetor, solução. Só depois percebe a verdade que muitos ignoram: ninguém salva ninguém sozinho. Apoio é importante, mas a caminhada é individual. Não é ausência de empatia — é entendimento da complexidade humana.


No fim, a história não fala sobre um “ser mágico que resolve tudo”, mas sobre a necessidade de redes de apoio reais, relações humanas consistentes e responsabilidade coletiva.

Um alerta para quem vive, testemunha ou ignora

O Pecado de Takopi não é um conto de fadas triste. É um espelho desconfortável. Ele nos lembra que:

  • Bullying não some com discursos prontos

  • O trauma cria cicatrizes que moldam comportamento

  • A empatia pode ser destruída pela dor

  • Suporte é vital, mas não substitui o processo interno

  • Brincadeira, quando fere, deixa de ser brincadeira

A obra chama atenção não só para as vítimas, mas também para os ambientes onde elas são invisibilizadas — escolas, casas, amizades, redes sociais.




A reflexão que fica

Takopi queria aliviar a dor impedindo Shizuka de enfrentá-la. E isso, apesar da intenção, só aprofundou as consequências. 

“Você não precisa de alguém que te salve da tempestade. Precisa de pessoas que te deem ferramentas para atravessá-la.”


Se você já sofreu, testemunhou ou ignorou o bullying… essa obra é um lembrete duro, mas necessário: o silêncio cria vítimas e o apoio certo pode ser a diferença entre desistir e recomeçar.



Onde assistir “O Pecado de Takopi”

O Pecado de Takopi (Takopi no Genzai) já recebeu uma adaptação em anime no formato ONA (original net animation). A série estreou em 28 de junho de 2025 e foi finalizada em 2 de agosto de 2025, com 6 episódios.

Atualmente, o anime está disponível oficialmente na Netflix, que detém os direitos de streaming globais. Plataformas como Crunchyroll e Prime Video ainda não possuem o título em seu catálogo, mas podem receber futuramente dependendo de acordos de distribuição.

Para quem deseja conhecer a história original, o mangá já se encontra disponível no Brasil na Amazon.



Ficha técnica do mangá

Título: O Pecado de Takopi (Takopi no Genzai)
Autor: Taizan 5
Gênero: Drama, psicológico, fantasia sombria
Formato: Mangá (2 volumes)
Publicação original: 2021–2022
Revista: Shōnen Jump+ (Shueisha)
Classificação indicativa: +16 (violência, suicídio, temas sensíveis)




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14 outubro 2025

O dia em que Pokémon tentou esconder o Japão — e acabou apresentando o anime ao mundo

 


“Huh? Have a donut!” — com essa frase, o mundo ocidental conheceu uma das cenas mais bizarras da dublagem de Pokémon. Brock, o cozinheiro do grupo, oferece o que o público americano acreditava serem “rosquinhas recheadas”. Mas, para quem sabia, tratava-se de onigiri — bolinhos de arroz típicos do Japão. Essa adaptação, feita pela dublagem americana, se tornou um dos momentos mais infames da história dos animes — um símbolo de como o Japão foi “ocultado” para o público ocidental nos anos 90.

Contudo, o vídeo que originou esse debate recente levanta um ponto curioso: será que Pokémon realmente quis esconder o Japão?


Afinal, momentos antes de Brock oferecer seu “donut”, vemos o Professor Carvalho em uma casa tradicional japonesa, com tatames, portas de papel e uma chaleira de chá. O mundo de Pokémon sempre foi, essencialmente, japonês.

Segundo Norman Grossfeld, então presidente da 4Kids (empresa responsável pela adaptação), a Nintendo do Japão não acreditava que Pokémon faria sucesso fora do país. Por isso, deu liberdade total para que a dublagem americana alterasse nomes, piadas e até a trilha sonora — tudo para tornar a série mais “universal”. O próprio diretor do anime, Kunihiko Yuyama, revelou que baseou o universo da série no Japão dos anos 1950, sem pensar em plateias estrangeiras.



Ainda assim, por mais que o ocidente trocasse onigiris por donuts e ramen por pizza, o DNA japonês da série permaneceu visível. As roupas, as casas, os templos, os festivais e até os comportamentos dos personagens carregavam traços da cultura nipônica. Ginásios como o de Koga, por exemplo, são mansões típicas de clãs ninjas, e episódios inteiros se passam em onsens (termas japonesas), festivais de bonecas ou festas das crianças, como o Kodomo no Hi.



Pokémon também mergulha em referências simbólicas. Quando Ash se gaba de suas insígnias e o nariz dele cresce, é uma alusão direta ao Tengu, criatura mítica japonesa associada à arrogância. Meowth, o falante felino da Equipe Rocket, é inspirado na estátua de Maneki Neko, o famoso “gato da sorte”. Há até menções a kabuki, manzai (dupla cômica japonesa), darumas, e expressões típicas que o público ocidental jamais entenderia — mas que ainda assim funcionavam visualmente e emocionalmente.

Com o tempo, a identidade japonesa do anime foi sendo diluída. Após a criação da Pokémon Company International em 2001, o foco passou a ser o público global: textos em kanji foram substituídos por símbolos genéricos, regiões inspiradas no Japão (como Kanto e Johto) deram lugar a regiões baseadas na França, Inglaterra e Havaí. Pokémon deixou de ser “um anime japonês sobre monstros” e se tornou “uma marca mundial sobre amizade e aventura”.



Mesmo assim, há algo profundamente nostálgico naqueles primeiros episódios. Ver Ash e seus amigos explorando vilas com pontes de madeira, comendo onigiri e dormindo sob tatames era, de certa forma, o primeiro contato de toda uma geração com o Japão — mesmo que muitos de nós não soubéssemos disso.

Talvez, no fim das contas, a lição mais bonita do “Donut Gate” seja essa:

Pokémon não escondeu o Japão. Ele o apresentou disfarçado — e o mundo aprendeu a amar esse sabor.

Fonte:

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11 setembro 2025

Protestos no Nepal: como a geração Z derrubou o governo comunista e transformou One Piece em símbolo de resistência

 


O Nepal viveu, em setembro de 2025, os maiores protestos das últimas décadas. O estopim foi a decisão do governo de banir 26 redes sociais, entre elas Facebook, Instagram, WhatsApp, X (antigo Twitter) e LinkedIn. A medida foi apresentada como uma tentativa de “regular” as plataformas, mas para milhões de nepaleses soou como censura digital.

A população, já cansada de escândalos de corrupção, nepotismo e ostentação da elite política nas redes sociais, reagiu com força. Em poucas horas, milhares de jovens tomaram as ruas, liderados principalmente pela geração Z, que sofre com alto desemprego, falta de perspectivas e serviços sociais precários.

De protestos a crise nacional

O movimento rapidamente ganhou dimensão histórica:

  • 19 pessoas morreram nos confrontos, segundo fontes locais.

  • Centenas ficaram feridas, com estimativas que variam entre 300 e 400 feridos.

  • O exército foi mobilizado e decretado toque de recolher em cidades como Katmandu.

  • O aeroporto internacional foi fechado temporariamente, afetando voos e deslocamentos.

  • Manifestantes incendiaram prédios públicos e casas de parlamentares, o que forçou vários políticos a fugir.

A repressão policial incluiu gás lacrimogêneo, balas de borracha, canhões de água e, em alguns casos, uso de munição real.


A queda do governo

Diante da pressão crescente, o primeiro-ministro K.P. Sharma Oli renunciou ao cargo. Outros ministros, como o do Interior, também deixaram o governo após a escalada da violência.

O bloqueio das redes sociais foi revogado, mas o estrago já estava feito: a crise expôs a fragilidade das instituições nepalesas e a distância entre a elite política e a população.


O simbolismo inesperado: One Piece nas ruas


Entre bandeiras políticas e cartazes de protesto, um símbolo surpreendeu a mídia internacional: a bandeira dos Chapéus de Palha, do anime e mangá One Piece.

Para os jovens nepaleses, o Jolly Roger de Luffy representa liberdade, desafio à tirania e lealdade a ideais — valores que dialogam diretamente com a revolta contra corrupção e censura.

O uso espontâneo desse ícone cultural mostrou como a cultura pop pode ser uma ferramenta de mobilização política. Para a geração Z, crescida com animes e redes sociais, símbolos assim são fáceis de reproduzir, compartilhar e compreender.


Raízes do descontentamento


Além da censura digital, os protestos refletem um acúmulo de insatisfações:

  • Nepotismo e clientelismo: cargos públicos dados a familiares e aliados políticos, não por mérito.

  • Ostentação de luxo: filhos de políticos, apelidados de “nepo kids”, exibindo riquezas no TikTok, enquanto milhões vivem em pobreza.

  • Desigualdade social: elites enriquecendo com recursos públicos, enquanto jovens enfrentam desemprego acima de 20%.

  • Corrupção sistêmica: verbas desviadas e instituições desacreditadas.


Nepal em perspectiva


  • População: cerca de 30 milhões de habitantes.

  • Economia: fortemente dependente de remessas de nepaleses que vivem no exterior.

  • Política: desde 2008, dominada por partidos comunistas (mauístas, marxistas-leninistas), que trocaram o discurso revolucionário pelo poder centralizado.

Esse contexto gerou um abismo entre o povo e as elites, criando as condições perfeitas para a explosão social que o mundo assistiu.


O que fica dessa revolta?


O caso do Nepal prova que tentar calar a voz de uma geração conectada pode ter efeito contrário. Em vez de silenciar, o governo catalisou a revolta.

E o detalhe mais simbólico de todos: um anime japonês virou bandeira de resistência política. One Piece, que já ultrapassou 1.000 episódios, mostrou que uma boa história pode atravessar fronteiras e inspirar não apenas fãs, mas também movimentos sociais inteiros.


Agora fica a reflexão: One Piece é apenas um anime de aventura, ou pode ser visto também como um manifesto cultural contra a tirania?

Deixe seu comentário e compartilhe este artigo para que mais pessoas entendam o que está acontecendo no Nepal.

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11 dezembro 2018

Sobre Cavaleiros da Netflix, Representatividade e Perseguição aos Fãs.



No último fim de semana tivemos a revelação durante a CCXP do trailer da nova animação de Saint Seiya para a plataforma de streaming Netflix. O trailer mostrou algumas mudanças na série quanto a animação que agora é em 3D entre outros detalhes. Mas o que mais chamou atenção e polêmica foi Shun de Andromeda como uma integrante mulher.



A inclusao da personagem foi questionada pelos fãs que dentro do universo criado. O roteirista Eugene Son deu uma declaração genérica de que o mundo mudou: garotos e garotas lutam lado a lado, aquele papinho progressista. Isto motivou o descontentamento de diversos fãs, até porque a mudança se deu justamente com o cavaleiro que era considerado o mais sensível e feminino do quinteto, e por que Shun, agora como mulher, não usa máscara, uma condição obrigatória para as demais guerreiras da trama, as amazonas. Além da nova Shun não passar a mesma personalidade do personagem original, que é delicado e pacifista.



O que muitos não sabem e que essa nova versão dos personagens tem como alvo principal o mercado americano, cujo o anime foi lançado em 2004 e foi um fracasso comercialmente. A empresa que trabalhou com a série original foi a DIC (hoje DHX). Por lá foram exibidos 114 episódios com censuras bizarras nas cenas sangrentas:





 A Toei cedeu os direitos a Netflix para uma nova versão afim de conquistar os americanos com sua linha de produtos e colecionáveis. Assim como o criador da série Masami Kurumada não está tão preocupados com a descaracterização da série principal. Só quer colher os frutos dessa parceria. Assim como o caso do Dragon Ball Evolution, que o criador do universo inspirador do filme  Akira Toryama disse ter gostado da adaptação. O objetivo é vender os produtos da marca com uma versão mais palatável aos gringos, e como os produtores de séries e animações bebem atualmente da fonte do progressismo a qualquer custo, mesmo que este gere prejuízos muitas vezes. Consequentemente a nova série dos defensores de Athena passaria por essa adaptação forçada.



O fato é que a Netflix vem fazendo diversos remakes de séries e animações antigas e colocando inserções que desagradam os fãs do conteúdo original. E a mídia, principalmente a americana, vem atacando esses fãs. Como no caso do remake da She-Ra lançado em Novembro, em que a imprensa tem feito ataques massivos aos fãs que não gostaram da obra e utilizando espantalhos tratando estes com estereótipo de velhos de 30 anos. O que levou lá nos EUA a dubladora da série original indo em defesa dos fãs desta inclusive acusando a Dreamworks, detentora atual dos direitos da personagem, a tentativa de censura a qualquer crítica a série da plataforma. 

Mesmo assim, ainda tentam empurrar ideologias de representatividade em produtos consolidados muitas vezes de maneira errônea. Como no caso de Cavaleiros onde há mulheres guerreiras e fortes inclusive uma linha do tempo alternativa, com protagonistas mulheres.

 

Estamos num momento de guerra cultural intensa no meio do entretenimento com o material produzido acidentalmente,  tanto com as produtoras que insistem em empurrar a qualquer custo a política da diversidade sem sutileza, sensibilidade e respeito aos remakes de produtos conhecidos pelo público quanto pela mídia especializada do meio que caça  e perseguem os fãs que criticam e os perseguem de diversas formas, porque se não jogarem o jogo dentro desse meio comprometem suas carreiras mesmo que o produto não tenha qualidade.